segunda-feira, 26 de outubro de 2026
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Rio Paraíba: como o rio moldou cidades, comunidades e atividades na Paraíba

O Rio Paraíba percorre mais de 350 quilômetros dentro do estado e conecta áreas do semiárido, cidades do interior e o estuário no litoral. Entenda como o rio ajudou a formar comunidades, sustentar atividades econômicas e organizar a ocupação do território paraibano.

O Rio Paraíba é um dos principais elementos naturais da formação territorial do estado. Ele nasce na Serra de Jabitacá, no município de Monteiro, no Cariri paraibano, e percorre mais de 350 quilômetros até desaguar no Oceano Atlântico, entre Cabedelo e Lucena. Ao longo desse caminho, o rio atravessa áreas do semiárido, passa por regiões de produção rural, alimenta reservatórios estratégicos e chega ao litoral em forma de estuário.

Mais do que um curso d’água, o Rio Paraíba funciona como eixo de conexão entre diferentes paisagens e modos de vida. Sua bacia reúne municípios, comunidades rurais, centros urbanos e áreas industriais, além de concentrar usos ligados ao abastecimento humano, à irrigação, à pesca, à criação de animais, ao lazer e ao turismo. Para conhecer melhor a Paraíba, compreender o rio é também compreender parte da história de sua ocupação.

Onde nasce e por onde passa o Rio Paraíba

O Rio Paraíba nasce na Serra de Jabitacá, em Monteiro, com o nome de rio do Meio. A partir das áreas de nascente, o curso segue no sentido sudoeste-nordeste e atravessa diferentes regiões do estado. A bacia hidrográfica do Rio Paraíba inclui a sub-bacia do Rio Taperoá e áreas classificadas como alto, médio e baixo curso.

De acordo com informações da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a bacia do Rio Paraíba está integralmente localizada no território paraibano. A Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba informa que a área da bacia abrange cerca de 20 mil quilômetros quadrados e inclui cidades como Campina Grande e João Pessoa.

O alto curso está associado ao Cariri e a outras áreas do interior, onde a disponibilidade de água é fortemente influenciada pelo regime irregular de chuvas. O médio curso atravessa áreas de transição e recebe águas de afluentes importantes. Já o baixo curso se aproxima da faixa litorânea, alcançando municípios como Santa Rita, Bayeux, João Pessoa e Cabedelo, até formar o estuário na desembocadura.

O rio como caminho de ocupação do território

Antes da expansão das cidades modernas, rios e estuários eram referências para deslocamento, obtenção de água, pesca e instalação de moradias. Na Paraíba, o Rio Paraíba ofereceu condições para a formação de comunidades em diferentes pontos do percurso. As margens e áreas próximas aos afluentes se tornaram espaços de produção, circulação e convivência.

No litoral, o estuário teve papel especialmente importante na ocupação da área que hoje integra a região metropolitana de João Pessoa. A presença de águas mais calmas, canais navegáveis e acesso ao oceano favoreceu a instalação de atividades portuárias e comerciais. A área do Porto do Capim, às margens do Rio Sanhauá, está ligada à história da ocupação da capital paraibana e à relação entre a cidade, o estuário e o comércio.

O rio também funcionou como referência para a organização de caminhos e limites entre municípios. Pontes, estradas e travessias construídas ao longo do curso aproximaram comunidades que, em períodos anteriores, dependiam de passagens naturais ou de embarcações. Em muitos locais, a presença do rio continua associada à identidade das populações que vivem em suas margens.

Abastecimento e segurança hídrica

Na porção interior da bacia, a água do Rio Paraíba e de seus reservatórios é essencial para o abastecimento de cidades, comunidades rurais e rebanhos. A irregularidade das chuvas no semiárido faz com que açudes e barragens tenham função estratégica para armazenar água durante os períodos chuvosos e reduzir os efeitos das estiagens.

Um dos reservatórios mais conhecidos é o Açude Epitácio Pessoa, também chamado de Açude Boqueirão, localizado no município de Boqueirão. O reservatório é utilizado no abastecimento de Campina Grande e de outras localidades, além de atender usos produtivos em sua área de influência. Por isso, o nível do açude e as condições do sistema hídrico têm impacto direto sobre a rotina de milhares de pessoas.

A importância dos reservatórios também explica por que períodos de seca costumam provocar consequências econômicas e sociais. Quando o volume de água diminui, podem surgir restrições para o consumo, a irrigação, a criação de animais e outras atividades. O cenário exige planejamento, fiscalização e uso responsável, principalmente em uma bacia com grande concentração populacional.

O trecho do Rio Paraíba também passou a receber águas do Eixo Leste do Projeto de Integração do Rio São Francisco. A conexão alterou a dinâmica de gestão hídrica em parte do estado, mas não elimina a necessidade de preservar nascentes, margens, afluentes e reservatórios. A água transferida depende de planejamento e deve ser administrada dentro das regras estabelecidas pelos órgãos responsáveis.

Agricultura, pesca e trabalho nas comunidades

As comunidades localizadas na bacia do Rio Paraíba desenvolveram atividades adaptadas às condições de cada trecho. No interior, a agricultura familiar, a criação de animais e o uso de pequenos reservatórios fazem parte da economia de diversas localidades. Em áreas próximas aos açudes, a pesca e a criação de peixes também podem complementar a renda das famílias.

O uso do rio, no entanto, não é igual em todo o percurso. No alto curso, a água disponível depende principalmente das chuvas, dos açudes e dos afluentes temporários. Em direção ao litoral, o estuário apresenta características próprias, com influência das marés, presença de manguezais e maior conexão com atividades urbanas, portuárias e turísticas.

Documentos do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba registram a participação de associações de moradores, pescadores, agricultores familiares e produtores rurais de municípios como Monteiro, Sumé, Congo, Boqueirão, Santa Rita e outras cidades. A presença dessas organizações mostra que a gestão da água não envolve apenas governos e empresas. Ela também depende da participação de quem utiliza o rio diariamente.

Campina Grande, João Pessoa e outras cidades da bacia

O Rio Paraíba influencia cidades de diferentes portes. Campina Grande, no Agreste, depende de um sistema de reservação relacionado à bacia para parte de seu abastecimento. A cidade se tornou um dos principais centros urbanos do estado, e suas necessidades de água aumentaram junto com o crescimento populacional, industrial e de serviços.

No litoral, a relação com o rio aparece de maneira diferente. João Pessoa está conectada ao estuário por meio do Rio Sanhauá, que compõe a divisa entre a capital e Bayeux. Santa Rita, Cabedelo, Bayeux e outros municípios também integram a dinâmica do baixo curso, onde os problemas de saneamento, ocupação das margens e poluição ganham maior visibilidade.

Cabedelo ocupa uma posição estratégica na foz. O município abriga o Porto de Cabedelo e áreas estuarinas relacionadas ao encontro das águas do rio com o Oceano Atlântico. Lucena, na margem oposta, também participa dessa paisagem de transição entre o ambiente fluvial, os manguezais e o mar.

Essa diversidade ajuda a explicar por que decisões tomadas em um ponto da bacia podem produzir efeitos em outros. O desmatamento de uma margem, o lançamento irregular de esgoto ou o uso excessivo de água em um trecho podem comprometer a qualidade e a disponibilidade do recurso rio abaixo.

Como o cidadão pode conhecer e preservar o Rio Paraíba

Para quem deseja conhecer o Rio Paraíba, o primeiro passo é identificar qual trecho será visitado. A paisagem e as condições de acesso variam muito entre a nascente, os reservatórios, o médio curso e o estuário. No interior, é importante verificar previamente as condições das estradas, a existência de autorização para entrada em propriedades ou áreas protegidas e a disponibilidade de água potável.

Na região litorânea, passeios de barco e atividades de educação ambiental já foram utilizados para apresentar a história do rio, seus aspectos geológicos e a importância do estuário. A oferta desses serviços pode mudar conforme a temporada, o operador e as condições de navegação. Por isso, o visitante deve confirmar diretamente com o responsável pelo passeio valores, horários, embarque e regras de segurança antes de se deslocar.

Durante a visita, não se deve retirar plantas, animais, conchas ou outros elementos do ambiente. Também é necessário evitar o descarte de resíduos, não alimentar a fauna e respeitar áreas de mangue, comunidades tradicionais, propriedades privadas e espaços de preservação. Em caso de banho, o cuidado deve ser redobrado: correnteza, profundidade, qualidade da água e presença de obstáculos podem variar conforme o local e o período do ano.

Outra forma de participação é acompanhar os canais dos órgãos de gestão hídrica. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba, criado em 2006, reúne representantes do poder público, usuários de água e sociedade civil. O colegiado funciona como espaço de discussão sobre conflitos, planejamento e uso compartilhado dos recursos hídricos. Informações institucionais podem ser consultadas no portal da AESA e nos canais oficiais do comitê.

Desafios para o futuro da bacia

A preservação do Rio Paraíba depende de medidas em toda a bacia, e não apenas na área da foz. Entre os principais desafios estão a redução do desmatamento das margens, o controle da erosão, a ampliação do saneamento, a proteção das nascentes e o uso equilibrado da água para abastecimento, agricultura, indústria e criação de animais.

No baixo curso, a expansão urbana aumenta a pressão sobre rios, canais e manguezais. No interior, a estiagem e a irregularidade das chuvas exigem planejamento de longo prazo. A gestão precisa considerar a realidade de cada região, mas também manter uma visão integrada: o rio é um sistema contínuo, no qual as ações realizadas a montante podem afetar as comunidades situadas a jusante.

O Rio Paraíba ajudou a moldar cidades e comunidades porque ofereceu água, caminhos, áreas de produção e referências para a ocupação do território. Hoje, sua importância permanece ligada à vida cotidiana de milhões de paraibanos. Conhecer o percurso do rio é uma maneira de entender a formação do estado e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua preservação depende de decisões públicas, participação comunitária e atitudes responsáveis de moradores e visitantes.